segunda-feira, 23 de maio de 2016

Venezuela: rotina de filas, privações e saques

Imagem: Reprodução

 








A Venezuela é um país com altíssimo grau de polarização política e social, mas há um lugar em que simpatizantes do governo e da oposição são forçados a deixar suas diferenças de lado: a fila para comprar comida.
Enquanto esperam para poder adquirir produtos cujo preço é regulado pelo governo, os venezuelanos têm tempo de sobra para conversar sobre as dificuldades que todos precisam enfrentar em seu dia a dia – independentemente de sua opinião política ou afinidade ideológica.
Entre os temas mais frequentes estão os preços que não param de subir. A Venezuela registra hoje a maior inflação do mundo – em 2015, o índice oficial ficou em 180%.
Outros assuntos recorrentes são os cortes de eletricidade e a falta d´água – que fazem com que muitos venezuelanos não possam lavar a louça ou tomar banho, algumas vezes por vários dias.
Outro problema é o aumento da criminalidade. Com um a taxa de 58 homicídios por 100 mil habitantes, hoje a Venezuela só perde para Honduras no ranking dos países mais violentos do mundo.
Mas talvez o que cause mais revolta é mesmo o motivo da fila: a falta de alimentos.
O problema vem sendo impulsionado por uma combinação de fatores políticos e estruturais – do alto grau de dependência da Venezuela de bens importados à queda nos preços do petróleo (cujas vendas geram divisas para o país pagar por suas importações) e o controle estatal da produção e distribuição de produtos básicos.
Segundo o presidente Nicolás Maduro, a escassez de alimentos também é o resultado de uma guerra econômica e política travada contra o governo por líderes e organizações empresariais de direita.
E foi com esse argumento que Maduro declarou estado de emergência no país no último dia 13.
Seja qual for a explicação, o fato é que milhares de venezuelanos precisam hoje fazer uma peregrinação diária por vendas e supermercados na esperança de conseguir o maior número de produtos básicos possível – de leite a arroz, óleo de cozinha e macarrão.
Além disso, a falta de produtos básicos e a alta dos preços há algum tempo se tornaram as principais preocupações dos venezuelanos – na frente, até mesmo, da questão da segurança.
Segundo uma pesquisa realizada em março pelo instituto Keller e Associados, 90% da população estaria “muito preocupada” com essas questões.
Para piorar, em alguns casos, a busca por alimentos e produtos básicos também tem se tornado violenta.
Só nos três primeiros meses deste ano, pelo menos 170 lojas foram saqueadas em todo o país – uma média de quase 2 saques por dia.

Dois lados
“Eu estava na fila ontem, esperando para comprar farinha de milho (usada para fazer arepa, uma espécie de bolinho tradicional no país) e conversando com uma vizinha sobre as privações que sofremos em função dessa falta de alimentos”, contou recentemente, em sua página do Facebook, uma jovem senhora de classe média que se define como simpatizante da oposição.
“Ela sai de casa todos os dias sem tomar café da manhã, porque quer guardar o pouco de comida que consegue encontrar para as crianças da família. Eu não chego a tanto, mas já não como arepa para deixar a farinha de milho para meu filho. Nada de mingau de aveia, porque para isso precisaria de leite – e guardo o leite para meu filho. Também não como manteiga pensando que posso querer fazer um bolo para ele. E o maior drama não é que tive de abrir mão disso tudo, mas que hoje eu veja isso como algo normal.”
A autora dessa mensagem diz que assinou recentemente uma petição promovida pela oposição ao governo Maduro em favor de um referendo sobre a convocação de novas eleições – o que é previsto pela Constituição venezuelana.
Mas quem está mais alinhado com o governo também sofre com a escassez de alimentos.
Sem querer se identificar, uma funcionária de um ministério, de classe média, conta que as privações marcam a rotina de sua família.
“Minha filha está muito magra. Ela não come mais biscoitos ou doces. Falta leite, remédios. Meus pais não conseguem comprar comida, são muito velhos. E só o que eu posso fazer é chorar”, diz.
Jogo de empurra
Ainda há, é verdade, chavistas mais linha-dura que acreditam que é preciso lutar a todo custo para se alcançar o que o falecido ex-presidente Hugo Chávez prometia em seus discursos: uma Venezuela socialista e igualitária.
Mas mesmos esses venezuelanos acabam culpando as “elites” pela crise, mas exigindo explicações do governo sobre por que não se consegue encontrar certos remédios ou tipos de alimentos.
E, até em função dessa dinâmica, um dos poucos fenômenos positivos impulsionados pelo aprofundamento da crise venezuelana é que famílias que haviam se dividido em função de diferenças políticas e ideológicas agora estão se “reunificando” na crítica a essas adversidades do dia a dia no país.
Na ausência de um líder carismático como Chávez, tem sido mais difícil para o governo se livrar da responsabilidade pelos problemas.
Segundo uma pesquisa do instituto IVAD, citado com alguma frequência pelo governo, 69% da população classifica a gestão Maduro como “ruim” ou “muito ruim”.
E não é difícil entender o porquê nas filas dos supermercados.
“(Os venezuelanos) estão passando fome – literalmente”, diz Angel Garcia, da consultoria Econometrica, com sede em Caracas. “Muitas pessoas estão comendo menos de duas refeições por dia, sem proteína, carne, frango ou feijão. Sua sobrevivência depende de farinha.”
Para um número cada vez maior de analistas, o país está à beira de um colapso.
Isso vem sendo dito há anos, mas há uma diferença agora: a crise chegou a um nível tal que todos estão sendo afetados pelo problema da falta de alimentos – independentemente de suas convicções políticas.
Por todos os lados, há mães tentando se adaptar à escassez, chavistas radicais que não sabem a quem culpar por seus problemas cotidianos, funcionários públicos sentindo que seu ganha-pão está ameaçado – todos travando as mesmas lutas diárias para sobreviver.

Fonte: BBC Brasil






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