quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Indiano comemora gol com salto que o leva a morte

Treinei muito esse movimento desde a minha juventude e se tornou simples de ser executado."
Hernanes, do
Inter de Milão
Eram 16 minutos do segundo tempo. O Bethlehem Vengthlang perdia por 1 a 0 para o Chanmari West, na liga regional da província de Mizoram, na Índia. A falta cobrada na área acabou indo direto para o gol. O goleiro se confundiu, não conseguiu encaixar a bola. Bateu na trave e voltou para a área. Estava lá Peter Biaksangzuala, 23 anos, para empurrar para as redes. A alegria foi tão imensa que o jovem comemorou com duplo salto mortal. E o segundo giro o levou à morte. Já caiu apagado. Sofrera séria lesão na medula. Depois de cinco dias internado, Peter morreu no último domingo. 
Eram 46 minutos do segundo tempo no Giuseppe Meazza. O Internazionale perdia por 2 a 1 para o Napoli, em jogo tenso pelo Campeonato Italiano. Bola alçada na grande área pelo lado esquerdo. O meia Hernanes subiu mais alto que a zaga e testou firme. Bola na rede. E no mesmo dia, no mesmo domingo da tragédia de Peter, deu a pirueta para comemorar o gol do empate por 2 a 2 já nos acréscimos. Detalhe: o salto do brasileiro foi executado para trás. Acrobacia de altíssimo risco.
comemoração Hernanes, Inter Milan x Napoli  (Foto: Reuters)Hernanes dá o salto mortal para trás para comemorar gol de empate do Inter com o Napoli (Foto: Reuters)

O mundo ficou abalado com a morte de Peter. O ex-jogador do São Paulo e da Seleção também. Lamentou muito. Mas não pensa em mudar o estilo de comemorar. Manterá o salto mortal.
- Fiquei muito triste pelo acontecimento, realmente foi uma infelicidade. No que diz respeito a mim, treinei muito esse movimento desde a minha juventude e se tornou um movimento natural, muito simples de ser executado. Eu me sinto seguro e não vejo nenhum risco. Por isso, continuarei comemorando da mesma forma.
 O nome já diz: salto mortal. A maioria dos jogadores não está preparada para esse salto"
José Luís Runco, médico do Fla
Peter poderia ter dado um soco no ar, como Pelé. Poderia ter simplesmente se ajoelhado para agradecer, como Jairzinho. Poderia ter jogado beijinhos, como Bebeto, ou ter apontado para si como se achasse "o cara", como Cristiano Ronaldo, Romário e tantos outros. Ou corrido para a torcida, como Messi. Preferiu a opção da acrobacia. Tal como Cafu, pentacampeão com o Brasil em 2002. Tal como André Catimba, atacante do Grêmio nos anos 1960 e 1970, que já errara o movimento na ocasião. E tal como Hernanes.
Ex-médico da seleção brasileira, atualmente comandando o departamento médico do Flamengo, José Luís Runco nem lembrava das acrobacias do meia do Internazionale para celebrar os gols. Mas pede ao meia e aos demais jogadores mais atenção, principalmente depois do que aconteceu com o indiano.
- Tem que ficar atento para essas coisas. A não ser que seja muito bem treinada, acho muito perigosa essa comemoração. O nome já diz: salto mortal. Corre muito o risco de fazer uma fratura na cervical, é a lesão que mais acontece num acidente desses. No nível da medula, como foi o caso. Normalmente é fatal. A maioria dos jogadores não está preparada para esse salto.
Peter Biaksangzuala, Comemoração errada India (Foto: AP)Peter Biaksangzuala, no momento da pirueta que levou à tragédia na Índia: comemoração de alto risco (Foto: AP)

Outros jogadores sentiram na pele os riscos da pirueta, que, para acrobatas de circo e ginastas olímpicos, é treinada à exaustão para ser bem executada. O atacante Maurides, do Internacional, teve rompidos os ligamentos do joelho direito após ter marcado o seu primeiro gol pelo Colorado na vitória por 3 a 1 sobre o América-MG, em julho de 2013 (assista no vídeo abaixo). Demorou 399 dias para se recuperar e voltar aos gramados, o que ocorreu em agosto deste ano, no time sub-23 do Inter, em partida pela Copa Fernandão, espécie de estadual do segundo semestre no Rio Grande do Sul. Antes da tragédia com Peter, já tinha jurado que não repetira mais o gesto de comemoração.
 
– Vi o lance e na hora voltou o filme na minha cabeça. Lamentável esta tragédia ter acontecido. Sinto muito pelo Peter, que afinal de contas é um colega de profissão. Certamente, o pessoal vai refletir muito antes de fazer essa comemoração daqui para frente. Eu já havia abandonado depois da lesão que sofri. Fiquei um ano fora dos gramados por causa de um lance “bobo”, como a gente chama no meio do futebol. Mas, para mim, já é passado. Estou jogando normalmente de novo e nem penso mais em festejar um gol dessa forma. Foi um divisor na minha carreira.
Nem penso mais em festejar um gol dessa forma. Foi um divisor na minha carreira."
Maurides, do Inter
 Campeã mundial de ginástica artística em 2003, entre outros títulos, Daiane dos Santos, agora comentarista de TV, não viu ainda a comemoração que fez a Índia chorar. Mas sempre alerta para os graves riscos da pirueta. Principalmente se o treinamento não for o adequado.
- Muito triste o que aconteceu. Isso é muito sério. A gente, que é ginasta, fica treinando há anos para fazer acrobacia. Até chegar ao salto mortal, tem uma sequência de aprendizado. Não é só sair para o chão, tem que voltar. Ter altura, velocidade certa... Antes de um ginasta fazer sozinho, tem alguém segurando. E apesar da grama, o campo de futebol é duro. Quando os jogadores fazem a comemoração, parece até uma homenagem para a gente. Até acredito que não seja a primeira vez que tenham feito. Alguns deve praticar capoeira, mas não sei se fizeram ginástica. Brincar com a gravidade é coisa séria.
fonte: http://globoesporte.globo.com/futebol/noticia/2014/10/morte-de-indiano-com-salto-mortal-nao-muda-hernanes-eu-me-sinto-seguro.html

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